30.9.05


meninas construtivamente subversivas
errata: aborto é a terceira causa de morte materna.

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26.9.05

Diálogo para um cedo

- Nem parecia dia e já espiava a fresta da telha (...) querendo montar a garupa da memória,
para vez outra habitar-se mudo (...) como fosse acordar e permanecer-se...
- Vejo raso, fundo parece vezo!
- Mas todo fundo é lasso!
- Se for passo...
- Passa!
- Não, volte aqui minha ausência, deita o colo do passado, que passa...
- E a fresta no telhado convidando o pó para espalhar a luz que passa!
- Olha lá!
- Sabe, é perigoso permitir-se em olhar...
- Cerre-se, para soabrir a alma!
- Onde se está assim?
- Assim a luz é dentro só e não sairei daqui...
- Cá, sair é tão estreito!
- Estreito como o canal da uretra, que bem poderia ser mais ancho e caber-me (...) assim esse caprichoso propósito de verter não me roubaria o ócio (...) levantar-me?
- Por isso, talvez, os mais astutos deixem os urinóis em vigília...


Célio Pedreira

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22.9.05

Os Dramáticos

A diferença entre um calango e um camelo.

Doze horas depois, finalmente, sentou-se à beira da cama. Embora tivesse dormido por tanto tempo, não estava descansada. Pelo contrário, era como se tivesse movimentado-se freneticamente este tempo todo. Seu corpo estava moído. E ensopado. Se quer tinha a desculpa de uma boa noite de boêmia para as doze horas pregada à cama.
Porque esteve pregada à cama, como uma crucificada. Abrira os olhos algumas vezes e esboçara erguer-se, pelo menos para beber água, sem sucesso.
Sabia que havia sonhado, não sabia o quê ao certo. Alguns quadros, rostos e algumas vozes estalavam na sua cabeça, sem qualquer conexão e sentido, como no filme de David Lynch.
Conseguiu ficar de pé, mas não recuperou o chão. A falta de sentido estendia-se para o mundo real, o mundo concreto. Não havia sentido na casa, na disposição dos móveis, nas cores das paredes. Pensou em mudar as coisas de lugar. Não havia espaço para mudar nada. Tudo tinha de ficar onde sempre esteve.
Deu-se conta de que ela própria sempre esteve no mesmo lugar.
Pensou em fumar um cigarro. Em seguida, lembrou-se dos dentes amarelos, da rouquidão, do cheiro nas roupas, no cabelo e do câncer.
Deu-se conta de que o cigarro matava estúpida e lentamente. Um suicídio sem qualquer heroísmo. Preferiria subir o morro para entrevistar traficantes, ser correspondente de guerra, pular de bungee jump. No mínimo, pular da varanda do apartamento.
Pensou em ligar para um amigo. Não teria saco para esperar na linha, marcar alguma coisa para daqui a não sei quantas horas ou não sei quantos dias. Os amigos eram adultos.
Deu-se conta de que ainda era uma criança.
Pensou em tomar um banho. Considerando o desejo de lavar a alma, precisaria de uma hora. Lembrou-se do Efeito Estufa, do Oriente Médio, da conta de água. Nem um banho estava isento de traumas.
Fitou a tevê. Não, definitivamente ela não traria consolo. Antes, estaria aceitando a sua sorte e entregando-se às trevas.
Vendeu-a. Encheu o tanque do carro. Seguiu para o litoral. Viajaria mil quilômetros para estar mil quilômetros mais distante deste setembro neste cerrado. Morreria na praia. Debaixo do sol, escutando as ondas, rodeada de água abundante e gratuita. Se era o começo ou o fim, não importava. Seria-o sob o luxo de 80% de umidade do ar.

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19.9.05

Duas

As mães eram amigas de tricô, mas as duas se conheceram na escola.
Pelos idos de 40. Quase 50.
Aquela coisa: faziam os deveres, dividam as mesmas bonecas, pulavam da casa de uma para outra.
E todos diziam:
- São como irmãs.
Emoçaram juntas. Juntas no primeiro baile de carnaval, quando lançar perfume era mais divertido.
Não mais irmãs, "amigas íntimas", para os íntimos.
Tinham dezoito na época em que se separaram. Rute casou, bem bonita na igreja velha, como queria a mãe.
Porque querer, querer, Rute não queria. Embarrigou, deu nisso. Foi morar no Sul com o marido.
Elisa não foi se despedir, constipou e caiu de cama. Parece que constipação e consternação eram a mesma coisa na cabeça dela.
Recebeu bem depois a carta que esperava pra ontem:
- "Não gosto de beijar ele por causa do bigode", escrevia Rute com sua letra miúda.
Miúda a carta também, Elisa precisou de um bocado de lenços: constipou outra vez.
Uma dúzia de cartas distribuída em alguns anos. No resto do tempo, um longo vazio.
Elisa mudou de cidade e um pouco de vida. Virou economista ou algo assim, só sei que estudou.
Rute teve dois filhos meninos com o bigodudo.
E os três foram embora: primeiro o marido, pela clássica outra, depois os garotos, por razões outras.
Ano passado, Rute adoeceu, foi em março. Coisa complicada, de não ter jeito mesmo.
Sozinha no leito do hospital, vez em quando recebia visita da neta.
Passava o dia fazendo palavras cruzadas, ficava feliz quando dava conta das difíceis.
Chorava muito e o que mais queria era ver Elisa de novo. Foi por isso que a neta fez das tripas coração para ajudar a vó.
Achou um monte de "Elisas Pontes" no gugol e por fim conseguiu telefonar para o lugar onde Elisa trabalhava. Foi uma conversa rápida.
Uma semana depois, Elisa estava na cidade. Rute queria fazer tanta coisa, enfeitar o quarto, passar perfume e batom.
Conseguiu que a enfermeira arranjasse umas flores.
Elisa entrou na enfermaria e Rute falou que ela estava tão linda e sempre ficava bonita quando usava rosa.
Se olharam por uns vinte minutos, caladas. Ou mais, talvez.
- Tanto tempo, Rute... mas não vamos lamentar não...
- Você lembra do meu diário, Lisinha?
- Aquele que tinha seu nome bordado na capa, né? Que você não me deixava ler...
- É...era porque eu escrevia pra você, falava daquele carinho bom de sentir, que era tão forte, que eu tinha medo...
- Mas não precisava fugir do medo... ainda namorar aquele bruta-montes e por aí vai. Ai, que adianta, agora? Não vamos falar disso...
- Quero falar disso sim. Tantos anos, isso tá aqui guardado. Não posso te pedir nada, mas falar eu posso. Falar que eu te amei eu posso...
As duas ficaram vermelhas que nem maçã-do-amor.
- Não precisa pedir nada mesmo não. Eu vou ficar aqui com você um tempo, muito tempo.
Elisa olhou para as flores meio murchas no pote e respirou bem fundo:
- Rute, você podia vir morar comigo...

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16.9.05

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12.9.05

Astracã

Com vassoura e pá,
juntou as bolinhas de isopor
saídas da barriga do urso de pelúcia
- castigo e contrição.
Das coisas da infância era a única que mantinha:
brincadeiras e planos, todos dissolveram,
menos o urso velho e puído.
Mas depois de tanto tempo
- já nem dormiam juntos -
foi só com a queda da estante
que ela se lembrou que ele existira.
Que existiram as amigas, os colegas, os primeiros saltos e
o primeiro emprego
- e outras coisas tristes que desejou não ter lembrado.
E com o ventre aberto em uma nesga
jazeu o bicho, amorfo e felpudo.
Ela olhou para seu peito e viu, num recorte de tempo,
bordado de rosa sobre um coração vermelho-atento,
as palavras amo você.
E só então se deu conta que era morte.
No chão, ao lado da cama,
um amontoado de glóbulos brancos.

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5.9.05

As Ensandecidas

Um bom motivo para festejar

Era uma verdade tão saborosa que ela mal podia acreditar. Alguma coisa ou todas juntas às quais recorreu havia funcionado. Não saberia à quem agradecer, mas estava grata. Profundamente grata.
O fato era que a sua madrasta, ou melhor, sua "péssimadrasta" saíra de casa. Finalmente, ela e suas máquinas (de bronzeamento, de pães, de qualquer coisa) desapareceram de sua frente.
O episódio era mágico, embora não tenha acontecido da noite para o dia.
Civilizada, a enteada procurou auxílio primeiramente junto a uma psicóloga. Freudiana, por sinal. Perguntou-lhe se já havia sonhado com a mulher casada com seu pai.
- Eles não estão mais casados.
- Você me disse que moram, os três, juntos.
- E são três os quartos da casa.
- Hum.
- Se já sonhei? Sonho com freqüência. Quer que lhe conte o último?
- Por favor.
- Eu chegava em casa e notava, de imediato, o silêncio e o cheiro de comida. O cheiro era mesmo notável, sugeria um banquete. Entrava na sala e via uma mesa colorida de muitos tipos de comida. Dois pratos, todavia, destacavam-se pela falta de cor. Sob cada um havia uma cabeça humana: a de minha madrasta e a de meu pai.
Naturalmente, não houve uma segunda visita à psicóloga. Daí por diante, tentou de tudo um pouco. Novena, prece, promessa, passe, mantra, meditação.
O desespero era tal que, algumas vezes, via-se obrigada a adotar o código de guerra. Espremia os amigos da madrasta para que soltassem os podres da mulher, com álcool se preciso. Em seguida contava ao pai e não perdia uma oportunidade para atirar indiretas na madrasta. Aumentava a temperatura do fogão quando ela punha um pão lá. Comia as coisas mais caras que ela comprava. Não dava recados.
Enfim, a enteada já havia perdido as estribeiras e as esperanças quando o pai chegou com a notícia de que se separariam, de verdade. Avisou que viajaria, para evitar maior constrangimento.
"Típico", pensou a filha. O pai era um poço de covardia. "Aceitou por tanto tempo essa situação ridícula". Depois, caiu em si. Aleluia! Precisava dar uma festa. A festa do despacho.
A festa, claro, foi muito boa. Na porta, uma coroa de alho. A varanda virou um altar, com direito a imagens, cachaça, galinha de cerâmica, tapetes, velas e fumos. Sobre a mesa havia um bolo especial. Na tv, filmes temáticos. De Cinderela a Os Outros. A música ambiente também era temática, variando de "Staying alive" a "Free your mind and your ass will folow".
Pelos quatro cantos da casa, um punhado generoso de sal grosso.



P.S (pós-senso):
"Existem bandidos e mocinhos? Quem sempre diga a verdade, quem nunca minta? Bons e maus governos? Não, existem apenas governos ruins e outros ainda piores".
C. Bukowski

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2.9.05

- O que vocês vão querer?


Amargo:
Um café com absinto e uma torta.

Forte: Ehr... eu quero... eu quero um capuccino [pausa] com... com... Por que ela é tão decidida assim?

Amargo: Eu não sou decidida, é uma decisão simples. Pede logo, porra!

Passado: Posso pedir enquanto você pensa?

Forte: Pode.

Passado: Eu quero um brownie e uma coca-cola.

Forte: Foi muito rápido, não deu tempo de pensar. Essa decisão é um rumo, entendeu? Não posso tomar a decisão errada.

Passado: O capuccino você já decidiu?

Forte: Eu quero o resto. Preciso de alguma coisa pra comer [pausa]. Eu quero um capuccino diet com licor de jabuticaba e um pão-de-queijo. Licor de jabuticaba é bom? É que eu achei bonito.

Amargo: Café com absinto nem é tão bom, mas tem álcool e é amargo.

Passado: Eu só pedi coca pra ser diferente.

Forte: Mas a gente sempre fala que vai tomar café.

Amargo: É, por que você vem num café tomar coca?

Passado: É que eu tô com dor de estômago e acho que ajuda.

Amargo: É, coca faz bem pro estômago. Corrói tudo que ta lá.

Passado: Que que você ta falando? Você tá fumando!

Amargo: Pelo menos eu não falo que faz bem.

Forte: Eu não fumo há um dia.

Passado: Parabéns.

Amargo: Daqui a um ano eu te dou parabéns.

Forte: Alguém diria que você tem um típico humor escocês.

Passado: É, humor de bêbada.

Amargo: Mas eu estou sóbria!

Forte: Mesmo depois do absinto?

(Amargo bate a cinza do cigarro dentro da xícara de café)

Amargo: Hoje eu posso beber o que eu quiser, porque minha ressaca é moral.

Forte: Essa toalha de crochê é muito kitsch.

Passado: Mas o que não é kitsch?

Forte: Não sei, eu faço crochê.

Amargo: Pão-de-queijo é bem sua cara.

Passado: Tá virando uma troca de farpas isso aqui.

Forte: Por que sou mineira ou por que minha cara é redonda e branca mesmo?

Amargo: Sua cara não é redonda.

Passado: É de pau.

Amargo: Tampouco. Porque você é de Minas, sim. E porque é caseiro. E sua mãe faz. Toda mãe faz pão-de-queijo bom.

Passado: Só pra constar, a minha não faz mais. Pegou preguiça.

Forte: A minha pegou desgosto.

Amargo: A minha ensinou a empregada.

Forte: Não vamos falar "empregada". É tão burguês.

Amargo: Capuccino também é burguês.

Passado: Forte, se aceita.

Forte: O que o capuccino tem a ver com a história?

Passado: A gente tá aqui por causa dele.

Descafeinado: Nossa, vocês já chegaram?

Forte: Já pedi um chocolate quente pra você. Quer dividir o pão-de-queijo?

passado, pelas 15:22 10 comentários

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