25.10.05

Os atrasados 1

Atrasou-se porque tentou escrever um poema.

Ter nascido no tempo errado, era a certeza que tinha a respeito de si.
Quando pequeno, pediu sim, um vídeo-game.
Porque todos o tinham no bairro.
Podia-se jogar futebol ali, but it was not the same.

Saiu de casa no mesmo dia em que de lá saíram os vinis.
Gostava dos pais, ensinaram-lhe tanto. Chegava a esquecer as divergências,
Quando a mãe resolvia fazer pudim de mamão e calda de cassis.
Mas foi demais o espanto de perder, de repente, tanta coisa esplêndida.
Pedindo, teria pagado as parcelas do maldito cd com a bendita mesada!

Comprou outros discos, chegou às fitas. Usava, há anos, a mesma máquina.
Os amigos que chegaram à última fase do último game, compraram apê.
Ele bebeu tanto quando fez um troco que, too insane, comprou um cepê.


A dor de sua cabeça era igual ao pavor da rua, do sol, das pessoas.
A ressaca perdurou, fazendo-o sentir um vazio, uma solidão.
Entrou no orkut, adicionou amigos, participou de comunidades. Em vão.
Não havia como revelar com precisão o seu tempo ou a sua pessoa.

passado, pelas 17:51 6 comentários

11.10.05

íntima

são ainda aquelas tantas
que se debatem dentro de mim

a uma falta o salto alto
e vai:
inscrevendo sua miudez
em todo canto do corpo
ela assim
reclama do rosto no espelho
e tenta romancear o feio contrato
do aceitar-nunca-ser

outra
faz que nada sabe
pra descansar
dos mil-olhos inventados:
em cada seu não
virá viver
uma menina tão mais distraída
que tanto faz a saia
ou a memória
de ser filha

a que menos me visita
é como um transe
um gozo
recorta o fino silêncio
em poucas palavras-máculas
traz a calma
de uma lição antiga:
ela amarra
o chão aos pés
mas me faz alada
pra levar essa e toda terra
entre os dedos, comigo.

passado, pelas 00:10 7 comentários

6.10.05

Jantar de despedida (ou A vingança é um prato...)

Anotava frases de filmes para usá-las quando lhes faltasse as próprias. Enrolou o vestido com esmero, a última demonstração de afeto. Tomou um banho demorado antes que ele chegasse. Fez unhas, comida e cara de cansada, várias vezes, não nessa ordem. Meditou, premeditou. Abriu a gaveta de costura e pegou a tesoura. Ainda faltava um pouco até que ele entrasse pela porta e admirasse a mesa do jantar com a mesma cara falsamente pasma como se visse um javali com uma maçã na boca. Seria apenas macarrão, mais uma vez? Não. Quinze minutos mais de reflexão no quarto foram suficientes para decidir: não se tratava de uma atitude baldia. Pegou o vestido de noiva que não usaria, desenrolou-o sem cuidado, deixando cair algumas pérolas (recolheu-as) e foi para a cozinha. Por que casar agora, depois de tanto tempo morando juntos? Picava os pedaços num estranho bem-me-quer-mal-me-quer, ora tomada de uma fúria extravagante, ora fria. Colocou água na panela e ligou o fogo para ferver. Jogou as tiras do vestido e da anágua e as pérolas no caldeirão - foi preciso trocar de recipiente. Reservou as miçangas e os pequenos paetês (polvilharia por cima?). A massa fedorenta que se formou, serviu-a em uma travessa de porcelana do enxoval. Foi até o quarto mais uma vez e, sem querer, chorou. E viu que era bom. O que se seguiu foi, para ela, de completa anestesia. Às vinte e duas e trinta, como de costume nas últimas semanas, o noivo chegou.
- Boa noite. Meu deus, que cheiro é esse?
- Boa noite, o jantar está pronto.
- O que você fez?
- Onde você estava?
- Eu já te disse, esse mês eu tenho que trabalhar até mais tarde por causa da queda de faturamento da empresa, eu sei que é ruim, mas é...
- "Eu não te amo mais. Desde agora. Agorinha".
Era mentira, mas a frase era boa. Não o amava mais havia semanas. Foi para o quarto pegar a mala já pronta, enquanto ele procurou algo para tirar o cheiro do jantar e o de perfume barato que ainda restava no paletó.

passado, pelas 14:20 10 comentários

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