vapores
gosto das suas camisas de botão
e pinto as unhas de rubro
pra ficar bonita a combinação
como se o sangue do seu peito
passasse pras minhas mãos
pra eu te manchar todo
de boca-baton imaginário
deitada, não vejo as suas pernas
por perto
mas sei que estão ao lado
das minhas coxas cobertas
no limite da cama
é ainda seu corpo longo
que me arrasta aventura adentro
para o centro da tarde
onde estamos nus:
eu e a sua imagem
é o gosto de acordar
ouvindo sussurros daquela poesia
ainda tépido você fala
que um dia fará tudo igual
com exceção de cortar os pulsos
que isso não é jeito de se matar
mas que garante os pássaros
rios pêssegos seios e cigarros
além da prova cabal
dos líquidos vertidos sorvidos
no lençol de linho antigo
que roubamos de outro varal
na hora de ler o jornal
sei que você vai rir
e dizer que naquela manhã
estarei propensa a calor humano
um pouco irritada em caso de engano
e especialmente doce ao sul
para provar outra vez
a incerteza de sua astrologia
volto do banho vestida
e preparo um café amargo
te chamo pra dançar comigo
quero pisar nos seus pés
fazer passos de tango
com colher no lugar de rosa
te beijar sabendo a menta
mentir que sempre fui santa
enquanto você descose a saia
e trança a porta da sala
pra vazar por janela aberta
o que há de suspenso e tenso
nos vapores da nossa erupção.
passado, pelas 15:45
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A UniversitariazinhaEsperavam o mesmo ônibus. Ele descobriu porque perguntou se já havia passado e ela disse que "tô aqui há um tempão e nada. Oito minutos!"
"A ansiedade é uma coisa terrível", ele provocou.
"Seria, se eu não tivesse o que fazer em casa. Tenho uma prova amanhã cedo e não estudei nada."
Ele não tinha o que fazer. Aliás, não sabia o que fazer. Por acidente, caminhara no parque. Sentira um prazer familiar, como se fosse habitual algo que ele experimentava pela primeira vez. Agora ia pra casa e...
"Você é muito divertida."
"Na faculdade é o que todos me dizem."
"Estuda o quê?"
" ... o ônibus!"
Quantos negócios não fechados, filosofias inconclusas, piadas sem riso, e tudo isso pela prosaica partida de alguém cujo ônibus esperado chega sem aviso. Aqueles dois não esperassem o mesmo ônibus e uma crônica de viagem deixaria de ser escrita. Sentaram-se juntos, ele primeiro.
"Relações públicas. Faço Relações Públicas."
E convidou-o pro coquetel de lançamento de seu produto: um advogado de renome que ele supunha péssimo. Iria ao coquetel. Ela falava levemente, como duma partida de vôlei na escola.
"Do que mais você gosta?", ele quis saber.
"De dormir. E de arte", arriscou. "Salvador Dalí"
Pintor espanhol do surrealismo. Era a nota de rodapé que ele tinha do artista. Por que artes plásticas? Fortunas por uma tela e tantos poemas sem publicar. Só pensou.
"Fiz quatro anos de piano", ela respondeu ao silêncio.
"E livros?"
"Desde que entrei na faculdade, só os técnicos."
"Vai gostar do García Márquez, mas não começa por Cem Anos de Solidão. A gente sempre desiste da primeira vez."
"Já desisti", ela confessou.
A bela adormecida do avião. Era ela! Precisava que ela lesse o conto.
"Começa por Doze Contos Peregrinos", ele introduziu o assunto.
"Lá tem um conto..."
"Oi!"
Ela encontrara um amigo. Ex-colega de faculdade, conforme ele apurou ouvindo a conversa. Pensou em não descer do ônibus.Já em casa, só, releu o conto do Garcia Márquez e lamentou que a beleza e a viagem (da universitariazinha e do ônibus) não fossem tão grandes como as da bela e do avião.
passado, pelas 09:56
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quânticanão era sonho
nem dia
um tempo outro
que pulava
dos relógios
como gatos
da janela
da gaiola particular
um assovio
pio
tinha jeito de hino
o que nunca soube
pois eram duras
as rimas
ouvi ali
que, sim
era hora de acordar:
a ópera moderna
deu de delirar
mais cedo
aquela vez
foi quando
o corpo
de moça feita
- cabelo vinho
e olhos d´água -
deitou do lado
e disse-que-rindo:
inventa asas
(voa)
que essa vida
é queda livre.
passado, pelas 23:52
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