estudo sobre um samba
o que você chama de pocilga, meu bem,
eu chamo de palácio.
onde você clama por abrigo,
eu só tenho meu abraço.
enquanto tiver essas fibras,
é fiasco,
eu descaso tudo, meu bem.
pra falar a verdade,
se essa vida fosse um figo,
eu me guardava pro bagaço.
passado, pelas 20:20
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O orvalho e o crediárioo cheiro da terra molhada
tarada por uma nova semente
o canto altivo e o vôo ascendente dos pássaros
molhados
o verde emulsivo das folhas
e suas gotas
e a esperança que sempre
pinga
que não se resseca
e supera a fadiga
porque tem coisas que só a tempestade
e a idade
fazem por você
passado, pelas 10:32
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Gira
Ao redor tão esquisitorodar tão nauseanteEmbaixo pêlos e calafriosO cheiro do instante perdidoEm cima respiro e suplicoo tempo que dáPor dentro um dó menorum surdo vibrantePor fim o cheque a beca o sacosem fundo
passado, pelas 03:36
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enquanto prepara uma invasão silenciosa
mofou.
sempre mofa, com um mínimo de descuido.
mofou.
eu sempre pensei que teria meu próprio pão.
mofou.
das últimas vezes, demorei a perceber o que sou.
mofei.
não aquela crosta verde, eu boloro sem ruído.
mofei.
fiz um ano incrível, fiz um papel risível.
mofei.
antes de mais nada, não menti que sei.
formou.
sempre fôrma, nunca me dão liberdade.
formou.
não que eu queira viver todo esse formol.
formei.
antes de mais nada, meu amor, eu amei.
formei.
não que tenham me acertado a idade.
fumou.
formando nuvens que agora vão e vêm, essa estação.
fumou.
sempre fuma, como um menino decidido.
me fui, filmei.
fiz de uma metade a outra, não dividi.
mofou.
não que eu tenha sofá, mas é sempre bom
colocar lá no quintal
para pegar um sol.
passado, pelas 16:00
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crise da meia idade
a minha cidade me mandou passear.
enfiou concreto na minha cara
e pra me fazer de palhaço pintaram tudo de branco.
cortou o que eu tinha de velho
me prometendo novidade
e saiu por aí sambando, toda dura.
minha cidade falou pr'eu m'embora
antes que o sol se ponha,
pr'eu guardar de lembrança o que tem de melhor.
passado, pelas 15:52
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quem ligou para maria andrade no sete de setembro
foi sua mãe.
dizia às pressas que tivera um problema,
não podia dizer por telefone.
das dez às onze da manhã, enquanto
preparava um pavê para levar,
não parava de sorrir, pensando
agora, teriam um segredo.
passado, pelas 16:59
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últimolá vem
malandro mês
faz ano
que não te vejo
é o último
o inferno das cabras
o silêncio dos ratos
felizes com os restos
das ceias
mas, calma
que na solidão da festa
o peru
também se foi
- fosse pavão
sobraria pena
espero você
outra vez
que trará
além dos sinos
e luzes
destruindo pupilas?
lembro de antes
deslembro
trinta e um
não é tanto
faça uma comparação:
para chegar
foram doze
dores
e quando
vier
a derradeira hora
receba
nossos mais sinceros
votos
de fim-de-si
de vá embora.
passado, pelas 18:44
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